Líderes europeus lutam pelo direito de assumir a diretoria da IFAF

O racha declarado na disputa do poder da International Federation of American Football põe em dúvida o futuro da administração do futebol americano mundial. Uma guerra de trincheiras foi formada pelo finlandês Roope Noronen* (atual vice-presidente da IFAF e eleito presidente interino) e o sueco Tommy Wiking (até então, atual presidente).

Na semana passada, uma publicação da página oficial da IFAF no Facebook anunciava que Noronen tinha sido eleito o novo mandatário interino da instituição pelo período de um ano, e Minette Rogner – presidenta da Svenska Amerikansk Fotbollförbundet (SAFF) – como secretária-geral a IFAF, durante o 18º Congresso Anual da entidade, realizado em Canton, nos Estados Unidos.

Porém, um tweet de uma suposta conta não-oficial da IFAF havia publicado que Wiking tinha sido reeleito por unanimidade pelos membros filiados.

A reunião de Canton

Reunião da IFAF que apoia Noronen. Foto IFAF/Divulgação
Reunião da IFAF que apoia Noronen (gravata azul). Foto IFAF/Divulgação

A batalha entre Noronen e Wiking iniciou-se antes mesmo do congresso ser realizado, alguns de representantes de nações filiadas saíram do encontro oficial quando foi anunciado que em umas das pautas da reunião, os membros deveriam entender que Wiking havia renunciado ao cargo de presidente da Federação Internacional.

Os motivos que levaram a não aceitação do sueco à mesa foram: o rompimento dele com a SAFF; o afastamento do comando da IFAF por uma licença médica não explicada; além de estar atualmente sob investigação criminal da polícia sueca por desvios de fundos, em relação a contratação da empresa Amfium** (da qual Wiking era presidente) pela SAFF para captação de recursos para a organizar a World Championship na Suécia.

De um lado, Noronen contou com o apoio de 19 nações: Austrália, Argentina, Bahamas, Brasil, Canadá, Chile, Coreia do Sul, Dinamarca, Estados Unidos, Finlândia, Grã-Bretanha, Israel, Japão, México, Nova Zelândia, Noruega, Panamá, Sérvia e Suécia.

— Foi comentado sobre o grupo que saiu que apenas sete federações estavam com os seus direitos de votos em dia com a IFAF, por eles estarem em dias com as suas obrigações financeiras. Enquanto que os que permaneceram poderiam votar normalmente  — contou o presidente da Confederação Brasileira de Futebol Americano, Guto Sousa, ao Futebol Americano Brasil.

Na pauta da assembleia estavam a votação de três moções de federações ligadas a Wiking, como: a alemã, a irlandesa e a indiana, juntamente com a aceitação da renúncia do antigo mandatário.

— Nós (federações que permaneceram na reunião) entendemos que havia um pedido de renúncia (de Wiking do comando da IFAF) — completou.

A reunião paralela de Canton

Reunião paralela que reelegeu Wiking no comendo da IFAF. Foto Federação do Kuwait/Divulgação
Reunião paralela que reelegeu Wiking (gravata vermelha) no comendo da IFAF. Foto Federação do Kuwait/Divulgação

Do outro lado, Wiking se aliou a Robert Huber – que é presidente da American Football Verband Deutschland (AFVD) e antigo presidente da extinta European Federation of American Football (EFAF), atual IFAF Europe – e ambos batalham para controlar o poder dentro da IFAF. Os dois tiveram o sufrágio 22 membros filiados, mas boa parte de baixa representatividade mundial, como: Holanda, Bélgica, Irlanda, Suíça, Ucrânia, Romênia, Bulgária, Grécia, Turquia, Qatar, Kuwait, Índia, Tailândia, Filipinas, Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua. Entretanto, contêm quatro países de forte influência na Europa: Alemanha, França, Espanha e Itália.

Halleneck é/foi tesoureiro da IFAF. Foto Usa Football/Divulgação
Halleneck representa a USA Football na IFAF

A discussão política da Alemanha e aliança com Wiking parte do pressuposto da reclamação de Huber contra a USA Football – que representa os Estados Unidos dentro da IFAF –, de que uma companhia de fins lucrativos, e não uma federação oficial, assim,  não poderia ser membro da IFAF. Isto impediria os Estados Unidos de sediar a IFAF World Championship em Canton, um dos motivos que levou a desistência da AFVD do Mundial, além da falta de captação de recursos em um curto período para enviar a equipe à disputa.

Este congresso paralelo, que manteve Wiking no cargo, também caçou o mandato do americano Scott Hallenberg (diretor-executivo da USA Football) do posto de tesoureiro da IFAF, além de não reconhecer Noronen como presidente interino.

O único país participante da Copa do Mudo que não apoiou Noronen foi a França. Crê-se que por questões políticas e o racha dentro da IFAF Europe, o presidente da Fédération Française de Football Américain (FFFA), Michel Daum, decidiu seguir Wiking e Huber, uma vez que a FFFA tem interesse de sediar o European Junior Championship U-19 (EJC U-19), em 2016 – a última edição da final do EJC foi realizada em Dresden, na Alemanha.

A reclamação de Wiking

Al-Sabah e Vizer (d)
Wiking teve reunião com Al-Sabah e Vizer (d) para ter o reconhecimento da IFAF no COI

No início de maio, Wiking acusou uma minoria de executivos da IFAF de um ‘golpe de estado’ para tirá-lo do poder em uma publicação no site oficial: ifaf.org. No final de abril, ainda durante sua licença médica, Tommy teve um encontro com o austríaco Marius Vizer, ex-presidente*** da SportAccord e ex-membro da comissão de coordenação do Comitê Olímpico Internacional (COI) dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, e o xeque Ahmad Al-Sabah do Kuwait, presidente do Comitê Olímpico Asiático, membro do COI e presidente da Associação dos Comitês Olímpicos Nacionais (ANOC na sigla em inglês), para negociar o reconhecimento do futebol americano e da IFAF dentro do COI, assim como a inclusão do esporte nos Jogos Asiáticos.

De acordo com Wiking, Vizer e Al-Sabah foram claros na manutenção dele no cargo de presidente da IFAF até o final do Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016, para que o COI aprovasse a entidade e internacionalmente. Entretanto, o site da IFAF já apresenta o selo de reconhecimento do COI.

Consequências

Em uma publicação do AFI, o duelo entre Noronen e Wiking desencadeou uma onda mundial de críticas, que levou as federações de alguns países a reter o pagamento da taxa anual de filiação na IFAF, até que haja uma contabilidade completa e relatório sobre todos os eventos que tem acontecido até momento.

Caso a tendência de rompimento entre os membros se mantenha, o racha declarado na Europa poderá efeito no resto do mundo. Competições continentais podem ser desfeitas pela divisão política entre os filiados.

A batalha pela posição de presidente da IFAF será determinada pela justiça francesa, uma vez que a sede e o registro da IFAF estão localizadas na cidade de La Courneuve, na França.

E aqui no Brasil?

Para a direção da CBFA, o duelo para o controle da presidência da IFAF não irá gerar problemas no Brasil. Para os brasileiros, é importante manter o foco na aliança com os Estados Unidos e as demais potências mundiais.

— Independentemente do que venha a acontecer, o Brasil continua como membro da IFAF como os outros 70 membros. A decisão foi estratégica de estar alinhado onde as principais potências das Américas estão. A gente entende estar estrategicamente onde é mais benéfico para o desenvolvimento do esporte aqui no país, que é estar do lado dos Estados Unidos, México e Canadá, Panamá e países da América do Sul. Mas mesmo assim trabalhar para união de todos os países da América em torno de objetivos comuns — explicou Sousa.

A aliança com a USA Football tem uma razão bem simples: a National Football League (NFL) tem influência dentro da USA Football, pois alguns membros do conselho da entidade são da NFL, como é o caso do comissário da NFL, Roger Goodell, o presidente e CEO do Green Bay Packers, Mark Murphy, e o vice-presidente executivo do Miami Dolphins, Dawn Aponte, que fazem parte da equipe de diretores. Sousa completa que o Brasil precisa construir uma ponte entre os clubes brasileiros e a NFL, pois o campeonato americano é que de fato gera o maior interesse do público dentro do país.


*Noronen também é presidente da Suomen Amerikkalaisen Jalkapallon Liittro (SAJL), a federação finlandesa de futebol americano. O finlandês atuou como vice-presidente da IFAF por 12 anos.
**De acordo com o porta-voz da SAFF, Martin Söderberg, a federação sueca investiu cerca de SEK 2,7 milhões (R$ 1,08 milhão) na contratação da Amfium. Segundo o Ratsit, a Amfium AB foi uma empresa sediada em Gotemburgo, na Suécia, para organização de feiras e eventos relacionados ao entretenimento, e teve as atividades encerradas no dia 18 de dezembro de 2014.
***Marius Vizer renunciou ao cargo de presidente da SporAccord depois de atacar abertamente o presidente do COI, Thomas Bach.