Viagem no Tempo: Cuiabá Arsenal relembra história de 10 anos

Uma das primeiras formações do Cuiabá Arsenal. Foto Arsenal/Arquivo

Com placar de 30 a 8, o Cuiabá Arsenal conquistou a primeira vitória de uma história de dez anos. Uma partida amistosa contra os Tubarões do Cerrado, ocorrida em 16 de junho de 2006, no miniestádio do bairro CPA I, em Cuiabá. Ano em que disputou outros quatro jogos. Depois mais seis em 2007 e nove em 2008. E esse será o início de uma série comemorativa de quatro episódios, nomeada de “Viagem no Tempo”, feita em função do aniversário de uma década.

A Associação Atlética Cuiabá Arsenal (AACA), fundada em abril de 2006, foi criada por um grupo de amigos que se reunia no campo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Para se entreter com a prática do futebol americano. E que, sem imaginar, viriam a formar o mais forte dos laços de amizade, aquele concebido com o suor e as lágrimas de um esporte rigoroso. Elo que foi responsável por criar e prover um dos mais rijos times do país. Mas não só isso, não só um time, mas uma aliança com energia para gerar uma ideia capaz de contagiar muitos.

A ideia de que poderiam se apropriar, adaptar e implantar uma nova cultura esportiva num país de proporções de mais de 200 milhões de habitantes. E que nessa caminhada agregariam diversos outros adeptos, assim como este que vos escreve, e que se uniriam com vários outros círculos de amigos nos mais dispersos rincões de toda a dimensão territorial do Brasil. Sim, não só um time de futebol americano, mas um dos principais polos fomentadores dessa idealização.

Game One

Em 2006, o Cuiabá Arsenal cumpriu com um cronograma de cinco partidas. Venceu a primeira contra os Tubarões do Cerrado (30-8), perdeu a segunda e a terceira versus o Ponta Grossa Black Knights (13-14) – atual Unicentro Knights – e o Curitiba Brown Spiders (27-54), ganhou a quarta do Jaraguá Breakers (25-0) e fechou com derrota para os Tubarões (12-14). Um ano intenso para um grupo jovem que estreou contra um staff experiente do Distrito Federal, os Tubarões do Cerrado, fundado em 2004.

O placar abriu com um field goal de Joseph Almeida (3-0), seguido pelo 1º TD – touchdown da estória do Arsenal, uma corrida de Aristides Junior (9-0). Os brasilienses reagiram e pontuaram (9-8). Mas os cuiabanos mantiveram o avanço e fizeram TD de passe de Joseph para Igor Mota e ainda converteram o extra point (16-8). Depois passe do quarterback Orlando Junior para Marcelo Roversi + XP (23-8) e fecharam com passe de Eliton Teixeira para Roversi + XP (30-8).

Um dos atletas fundadores presente nesse primeiro amistoso, Daniel Teixeira Cassis, o Danielzinho, um empresário e engenheiro sanitário e ambiental de 32 anos, na época estudante de 23 anos (2006), um running back que desde criança acompanha os jogos da National Football League (NFL), conta que o objetivo inicial da turma de amigos era de brincar para divertir. E, segundo ele, com o tempo a ideia ganhou corpo. E a primeira vitória foi um momento chave.

— A partida foi mais fácil do que esperávamos. Tínhamos treinado bastante e estávamos seguindo o playbook. E o jogo nem chegou ao fim, pois a equipe de Brasília desistiu com o placar em 30 a 8. Estavam cansados por causa da longa viagem e tinham mais ou menos apenas 20 jogadores. Nós por volta de 30. Até lembro de uma trick play, uma jogada reversa onde a bola foi entregue para o recebedor Joseph e ele lançou para Igor fazer TD — recorda Daniel.

Primeiro Título

Em 2007, o Cuiabá Arsenal não fez amistosos. Participou de duas competições, o Capital Bowl I, realizado em abril, na cidade de Brasília, e o Pantanal Bowl I, ocorrido no mês de setembro, na Cuiabá. Num total de seis jogos e cinco vitórias naquele ano. Pelo Capital Bowl venceu os Federais (62-8), perdeu para os Tubarões do Cerrado (6-13) e ganhou do Ipanema Tatuís (33-13). E o troféu ficou com os anfitriões, o TdC. Crescia a rivalidade Arsenal e Tubarões.

Aurélio Alves Jacarandá, um pioneiro do Arsenal, presente em amistosos de 2006 e nos torneios de 2007, um engenheiro eletricista e de telecomunicações de 31 anos, na época estudante com 21, um offensive line, lembra que a equipe sempre buscou conhecimento sobre o esporte que praticava. O que refletia no aprimoramento do conjunto ano após ano. E, segundo ele, a vontade de vencer era enorme e os jogos transbordavam emoção. Em especial contra Tubarões.

— Acredito que o antagonismo de Arsenal e Tubarões nasceu no primeiro confronto. Tivemos uma vitória de certa forma fácil. E por isso eles ficaram com muita vontade de dar o troco. E a cada encontro essa rivalidade aumentava. Com jogos animados e exaltados. Onde todos davam o máximo. Tenho na memória um flash do torneio capital, de quando jogamos contra eles, que dava para ver que todos estavam focados na partida. Gritando e apoiando — relembra Aurélio.

No Pantanal Bowl I, uma competição da casa, organizada no Estádio Eurico Gaspar Dutra, o Arsenal vence os três confrontos. Domina os Federais (41-0), depois controla os mineiros do Minas Locomotiva (35-0) e triunfa contra o Ilha Avalanche (23-0). E empunha de forma invicta o primeiro título do clube, com o total de 99 pontos feitos e nenhum contrário. O começo de uma história de batalhas memoráveis no Dutrinha.

Igor Mota de Oliveira, apelidado de Igornidas ou Capitão, pela posição de liderança exercida na defesa como linebacker, outra fortaleza do Arsenal, um profissional de educação física de 29 anos, naquele tempo estudante, recorda que na preparação do Pantanal Bowl os atletas auxiliaram desde na pintura do campo, instalação do field goal, até na arrumação do som. E que essa postura permaneceu até dias atuais. E, segundo ele, o público ainda era pequeno e formado de familiares e amigos.

— De 2006 para 2007 adquirimos experiência de jogo. E colocamos tudo o que sabíamos dentro do campo para conseguir vencer as partidas. Ser o campeão do Pantanal Bowl foi a coroação desse trabalho e o que precisávamos para ir adiante. O começo do que queríamos, que era ser o melhor do país. Pudemos marcar nosso nome como time. E também como realizadores de eventos de futebol americano no Brasil. Nos tornamos referência — avalia o capitão Igor Mota.

+ Bowls

Em 2008, o Cuiabá Arsenal disputou nove e venceu oito partidas. O time estava em ascensão, competiu em três Bowls e subiu ao topo do pódio em dois. Participara do Capital Bowl II, em abril, em Brasília, torneio que haviam perdido no ano anterior para os Tubarões, e desta vez foram campeões. Venceram o Sorocaba Vipers (21-8), os Tubarões do Cerrado (8-0) e a Seleção de Manaus (26-0). O êxito em cima do TdC teve sabor extra (rivalidade 2-2).

No Pantanal Bowl II, em maio, em Cuiabá, enfrentaram uma reunião de paulistas que se auto intitulara como São Paulo Bandeirantes. Vitória com placar de 13 a 6. Depois mais um duelo vencedor contra os Tubarões do Cerrado (17-5). E Arsenal passava a frente do rival em confrontos ganhos (3-2). Mas em seguida toparam com os cariocas dos Mamutes. E a glória escapuliu entre os dedos (13-18). Engoliram em seco uma derrota na 2º edição de um torneio em casa.

Já no Sorocaba Bowl I, em novembro, no município de Sorocaba, começou com domínio sobre o São Paulo Storm (23-12). Depois bateu o Rio de Janiero Imperadores (14-6). Outro dos times mais sólidos do país. E que viria a se tornar o primeiro campeão brasileiro no ano seguinte (2009). E o Arsenal garantiu a taça desse Bowl ao superar os donos da casa, o Sorocaba Vipers por 29 a 23. Era o terceiro título da história.

No próximo episódio relembraremos alguns fatos ocorridos nos anos de 2009 e 2010. Como o início da era full pads, mais bowls e também sobre os primeiros campeonatos brasileiros.

Texto Junior Martins/Arsenal