Mendes renuncia ao cargo de head coach do Brasil Onças

Mendes tem campanha de 1-0 no comando do Brasil Onças. Foto Junior Martins/Arsenal/Futebol Americano Brasil

Gabriel Mendes não é mais o head coach do Brasil Onças. O ex-treinador formalizou a renúncia através de uma carta enviada ao atual presidente Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA), Ítalo Mingoni, nesta terça-feira (3).

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A decisão surte a primeira baixa no arranque da gestão de Mingoni e Lucas David. A direção da CBFA agradeceu o período trabalhado por Mendes à frente dos Onças.

— Seguramente, o coach Gabriel Mendes é um dos maiores técnicos de futebol americano do país. A sua renúncia é uma perda institucional imensurável, mas sabemos que é um ciclo inevitável neste momento. Eu, pessoalmente, sou muito fã do trabalho dele e de como conduziu a nossa seleção quando esteve frente ao projeto. Desejo ao coach Mendes sucesso em seus projetos pessoais e em nome da comunidade do futebol americano no Brasil, aos seus serviços prestados à comunidade. Em breve teremos boas notícias pela frente sobre o Brasil Onças — comentou Mingoni.

O planejamento de Mendes para deixar o cargo de treinador do Brasil Onças era de ser pós-2019 IFAF World Championship, que estava agendada para ocorrer na Austrália. Entretanto, com o adiamento da competição, o carioca antecipou a decisão da renúncia.

Mendes ressaltou que deixa o cargo seguro de que a CBFA apresentará um nome qualificado para ocupar o comando da seleção brasileira.

— Fiquei muito satisfeito com o resultado da eleição da CBFA e acho que o futebol americano no Brasil estará em ótimas mãos. Lamento não poder servir aos novos diretores, com quem já trabalhei e tenho ótima relação. Conversei longamente com o Ítalo Mingoni, que entendeu minhas razões. Eu jamais pularia do barco, sem ter a certeza de que o projeto continuará sendo tocado pelas pessoas mais qualificadas. Aguardem, pois ótimas notícias virão — finalizou.

Leia a carta de renúncia de Mendes na íntegra

“À comunidade de Futebol Americano do Brasil,

Todo ciclo tem um fim. O meu chegou. Não do jeito que eu tinha sonhado, mas chegou. Os mais próximos sabem que meus planos eram encerrar a carreira depois da Copa do Mundo. O adiamento do Mundial da Austrália me forçou a antecipar minha decisão. Convém esclarecer que fiquei muito satisfeito com o resultado da eleição da CBFA e acho que o FABR estará em ótimas mãos. Lamento não poder servir aos novos diretores, com quem já trabalhei e tenho ótima relação. Mas entendo que, devido aos meus compromissos profissionais e ao meu afastamento do dia a dia do futebol americano, não sou mais o melhor nome para liderar a seleção. Conversei longamente com o (talo Mingoni, que entendeu minhas razões. Eu jamais pularia do barco, sem ter a certeza de que o projeto continuará sendo tocado pelas pessoas mais qualificadas. Aguardem, pois ótimas notícias virão.

Encerro esse ciclo com a humildade, o discernimento e a autocrítica que sempre marcaram minha carreira. Tenho consciência de que fizemos (eu e a Comissão Técnica) muito menos do que gostaríamos, em termos de jogos, eventos e resultados. Mas, diante das limitações (sobretudo financeiras), creio que fizemos um bom trabalho na democratização do acesso à seleção brasileira e na implantação de uma nova cultura.

Quando assumi a seleção, em 2015, me impus um desafio muito mais gerencial do que técnico. Nunca quis ser conhecido pelos aspectos táticos, pelo sistema de jogo, pelo playbook implantado, na minha passagem pela seleção. Entendi que vivíamos um momento de transição. E que, naquele momento, era necessário atuar firmemente para atingir os seguintes objetivos:
(a) difundir as boas práticas de FA pelo país e contribuir para a elevação do nível de futebol americano no Brasil
(b) consolidar a cultura de vídeos, como ferramenta de análise do desempenho técnicos dos atletas
(c) garantir um processo transparente e democrático, que assegurasse a qualquer atleta do país a oportunidade de ser avaliado na seleção
(d) montar uma Comissão Técnica e um Departamento de Scouting respeitáveis, diversificados e com capilaridade para atingir atletas e coaches no país inteiro (e) garantir um patamar mínimo de suporte para jogadores e coaches que servem à seleção brasileira, durante jogos ou eventos (alimentação, hospedagem, traslado, passagens aéreas etc).

Acredito que esses objetivos foram parciais ou totalmente alcançados ao longo desse período. A cultura de produção de vídeos está consolidada e tem ajudado, inclusive, que nossos atletas tenham oportunidade em outros países. As contratações dentro do país também se tornaram muito mais constantes. E os vídeos produzidos pelos jogadores são seu maior portfólio. As convocações que fizemos foram sempre bem recebidas. Obviamente, houve discordâncias. E sempre haverá, porque em qualquer convocação há um componente subjetivo. Mas a comunidade de futebol americano sabe que nenhum atleta foi escolhido por nome ou por fama. E que todos os bons atletas estão sendo avaliados, ainda que não tenham sido chamados. Elevamos as exigências da seleção brasileira a um novo patamar, com a realização dos camps regionais de 2016 e, sobretudo, com o amistoso contra a Argentina. Nesse training camp, em Belo Horizonte, em dezembro de 2017, os jogadores e coaches tiveram todas as despesas pagas (passagens aéreas, hospedagem, traslado, alimentação). Treinamos em campos de qualidade, tivemos todas as facilidades (como salas de vídeo e de reunião) e jogamos no Mineirão, um estádio de Copa do Mundo.

É fato que a seleção se reuniu muito menos do que gostaríamos desde a última Copa do Mundo. Em meio aos poucos camps que conseguimos fazer, tivemos muitas frustrações e alguns dissabores. O maior deles, claro, o cancelamento da Copa do Mundo da Austrália. Em todo esse período, tivemos o apoio da CBFA, com quem mantivemos uma relação de respeito e parceria. As duas direções com as quais trabalhei me deram total autonomia e trataram a seleção com a deferência que a mesma merece. Naturalmente, como é próprio do esporte amador, muitos dos planos da CBFA e da CT para a seleção nunca saíram do papel. A falta de apoio financeiro (de empresas e do poder público) sempre foi nosso maior obstáculo. Ideias não faltaram. Recursos, sim.

Para quem começou no FA em 2000, são inegáveis os avanços obtidos ao longo dessas quase duas décadas. Lá atrás, eu não poderia imaginar que o esporte cresceria tanto no país. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. E o salto de qualidade que precisamos dar passa necessariamente por gestão e captação de recursos. O “amor” nos trouxe até aqui. Mas não dá para ir mais longe de que isso. Agora, é preciso conseguir recursos. Dinheiro para pagar atletas, coaches, juízes e gestores. Dinheiro para garantir bons espetáculos para o público. Alguns times já vêm apostando na profissionalização (ou semi profissionalização) e estão colhendo os frutos. Não se trata de doação ou caridade. Trata-se de investimento. FA é um negócio altamente lucrativo. E gera retorno. Mas é preciso encará-lo de forma profissional. A seleção brasileira também deve ser vista como um “business” (desde que respeitados sempre os aspectos técnicos, definidos pela CT). Espero ter sido o último half time coach amador da seleção.

Agradeço ao Guto Sousa pelo convite em 2015 para assumir o comando da seleção e ao Rogério Pimentel, pela confiança de manter nossa CT no cargo. Agradeço aos coaches fixos e eventuais da Comissão Técnica, que foram sempre leais, prestativos e eficientes, facilitando demais o meu trabalho. Agradeço, em especial, aos coaches e amigos Clayton Lovett e Brian Guzman, que foram meus mentores, conselheiros e parceiros ao longo dessa jornada. Sem vocês, eu não teria entrado nesse barco. Agradeço a todos os jogadores com quem trabalhei nesse período e também àqueles com quem não tive a oportunidade de trabalhar. Os atletas que treinam, se preparam fisicamente, estudam o jogo e tentam melhorar diariamente são os verdadeiros heróis do nosso esporte. Agradeço ainda aos meus colegas de profissão, jornalistas e fotógrafos, pelo trabalho árduo de acompanhar e divulgar um esporte amador. Sei bem das dificuldades de vocês. E agradeço de coração pela boa vontade de sempre, pela cautela respeitosa nas críticas e pela preocupação, acima de tudo, com o crescimento do esporte.

Aos novos encarregados da seleção brasileira, desejo sucesso e me coloco à disposição para tudo o que for preciso para uma transição produtiva e bem sucedida. A partir de hoje, deixo, por completo, o título de coach e volto a ser apenas jornalista. O FABR perde um treinador dedicado, mas ganha um dos mais antigos e apaixonados entusiastas do esporte.

Forte abraço a todos! Gabriel Mendes Ex-Head Coach Seleção Brasileira de Futebol Americano”

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